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Memória, pra que te quero?

Tenho um quê de acumulador compulsivo. Penso muito nas possibilidades futuras de um objeto, que pode se tornar futuramente um registro histórico de um tempo, de pessoas, práticas, lugares. É uma preocupação com o reconhecimento futuro da memória do meu ‘hoje’? Evito o doloroso momento de arrumação do quarto, pois significa passar os olhos e as mãos por tantos papéis, livros, cadernos, anotações, postais, fotocópias de texto… Acabo me perdendo em meio a todos eles, pois viajo nas recordações, sou novamente enfrentado com questionamentos, faço avaliações de situações atuais. Evito a condição de ‘filtro / filtrador’, de selecionador da colheita, afinal, essa função requer escolhas do que fica e do que vai embora, tal como uma manipulação das lembranças dos eventos. O momento de consciência desses cortes são muito marcantes pra mim. Meu quarto emite sinais de saturação, de não comportar mais nada caso uma arrumação não aconteça em breve, então penso que o patamar preocupante de tratamento clínico para a acumulação já tenha sido atingido. Mas o quanto de memória uma pessoa de 25 anos pode querer guardar?

Nasci e cresci numa cidade dita repetidamente como ‘sem memória’. Ainda é possível ouvir as críticas de que “Fortaleza não tem memória”, “Fortaleza deu as costas pro seu passado arquitetônico”, “Fortaleza se abre para o novo”, “Os lugares sempre fecham em Fortaleza”, “Recife valoriza sua cultura e sua história, diferentemente de Fortaleza”. Fortaleza não tem sua memória ‘guardada’? Tem sua memória disputada? Tem a memória descartada?

Eis que me deparo com um artigo de Alê Youssef no site da Trip, falando sobre uma São Paulo desmemoriada, sem a Vila Madalena. Aqui vai só o trechinho final do post dele, para que ninguém me processe por reprodução não-autorizada: “A Vila dos anos 80 foi uma grande inspiração para coisas que fiz mais tarde e infelizmente talvez seja um exemplo que ao longo do tempo vai se repetindo sem parar, de como a vanguarda cultural é tratada em São Paulo, uma cidade sem memória.”

Assim fico confuso. Não é só Fortaleza? Noutros cantos também temem pela perda de memória da cidade?

Temos medo de que a memória do que vivemos se perca da ‘memória alargada’ de uma cidade? Temos medo da perda de contexto e de referência entre os tempos? Começo a achar que sim. E isso tem tudo a ver com minha acumulação compulsiva.

Praça do Preso Político Desaparecido

No dia 26 de novembro de 2011, o coletivo Aparecidos Políticos fez uma de suas intervenções mais ousadas:/ o rebatismo popular da praça localizada em frente ao 23º Batalhão de Caçadores do Exército, em Fortaleza, Brasil. O manequim, a faixa e a placa, que podem ser vistos no vídeo acima, foram retirados no dia seguinte, na madrugada, mas aqui fica o registro das palavras que rebatizaram a Praça do Preso Político Desaparecido:

Ao lado dessa praça, naquele quartel, pessoas foram torturadas na ditadura militar.
Escolhemos essa praça em memória de todos mortos e desaparecidos políticos das ditaduras latino-americanas.
Pelo direito à memória, justiça e verdade.

Os Aparecidos Políticos
Fortaleza, 26 de novembro de 2011

No dia 7 de janeiro, às 16h, vai acontecer a Feira da Memória na mesma praça, um momento aberto à participação dos moradores da cidade.

Bom Jardim – A construção de uma história

An interesting work cannot be measured by its tangible length. If the work is authentic and humble, there is a great value added to it. That’s the case of this book about the neighborhood of Bom Jardim, in Fortaleza, Brazil. A few pages sum up the journey of local comics artist Valdeci Carvalho in trying to get a grip of his neighborhood’s history, Bom Jardim. He combined little interviews with first settlers and remarks of his daily life into an effort of tracking the presence of his neighboorhood on time and space, discussing the violence identified to the place.

Karen Worcman e o Museu da Pessoa

Por ocasião do Dia Internacional de Histórias de Vida deste ano, em 16 de maio, o Nós da Comunicação entrevistou a historiadora Karen Worcman, diretora do Museu da Pessoa.

Worcman ressalta a importância das memórias das pessoas comuns, que ampliam os significados que nos orientam a dar valor às coisas.

Recomendo a leitura. Não tem como se arrepender; clique aqui para conferir.

Investigação de Memória de Bairro

Arte em muro do Centro Cultural Bom Jardim, em Fortaleza • Foto por João Miguel Lima • Tirada em 2009

Após alguns meses de conversas e acertos, facilitei uma oficina em 9 de julho no Centro Cultural Bom Jardim, em Fortaleza, Brasil. Fizemos uma roda de apresentação de fotos de infância e discutimos sobre as memórias individuais, coletivas e afetivas, pois memórias têm pessoas e estão inscritas no tempo. Marcamos no mapa de Fortaleza os lugares que marcaram nossas vidas, pois memórias se dão sobre o espaço. A partir do caso das várias memórias no bairro Praia de Iracema, os participantes da oficina deram suas impressões sobre Fortaleza e sobre Bom Jardim, sobre seus trabalhos no centro cultural, sobre lidar com crianças, jovens e adultos e sobre as vozes que têm sido amplificadas no bairro.

Nas 5 horas do encontro, divididas na manhã e na tarde daquele sábado, aprendi bastante. Sou grato a cada professor do CCBJ que participou da oficina apresentando uma foto de quando era criança, compartilhando histórias e impressões sobre o bairro. A oficina foi uma das atividades do projeto Jardim de Memórias.

Para quem se pergunta o que existe na periferia de Fortaleza, existe muito mais que carências sociais e estatísticas negativas. Existe muita vitalidade.

Museu da Maré

Existe na cidade do Rio de Janeiro uma região conhecida como Maré, próxima à ilha do Fundão (onde está localizada a cidade universitária da UFRJ) e margeada de um lado pela temida rodovia da Linha Vermelha, e do outro pela Avenida Brasil. As comunidades da Maré, como o nome sugere, têm uma relação com a água: a ocupação se intensificou a partir dos anos 1940 com palafitas por cima das águas da baía de Guanabara.

Marcada nos anos 1980 como área de pobreza, a história da comunidade tem recebido novos contornos pelos próprios moradores. Apaixonados pelo cotidiano da vida social do lugar, moradores se engajaram em iniciativas como a TV Maré, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) e o Museu da Maré:

Criado em 2006, o museu agrega objetos de valor afetivo dos moradores, histórias dos diversos tempos da comunidade e histórias de vida dos moradores. O espaço tem uma programação de cursos e encontros voltada principalmente para os moradores do entorno, mas tem se firmado como espaço cultural da cidade, recebendo exposições nacionais.

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• Vale a pena explorar o site do museu. Tem bastante material a respeito da história da ocupação e das atividades realizadas lá. É bem peculiar a forma como tratam museologicamente o acervo da comunidade.
• Recomendo especialmente a página de vídeos com depoimentos de moradores sobre o museu.

[*] Pude conhecer mais sobre o Museu da Maré durante o seminário Entre Memórias: museus e comunidades, realizado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, nos dias 19 e 20 de maio de 2011.

Quinha do Tamborete

O tamborete, só paga cinco, óiaa! Ainda serve pra sentar, pra conversar, pra namorar, falar de bem, falar de mal, olhaa!“: esse é o bordão de dona Quinha do Tamborete, como é conhecida essa senhora, que caminha pelas ruas do Recife a vender tamboretes (bancos pequenos) que ela mesma fabrica em sua casa. Ela é moradora da comunidade do Coque, no Recife, e foi descoberta por meio de vídeos publicados no Youtube, de pessoas que a viram com seu carro-de-mão, divulgando seus tamboretes em alto e bom som. Veja o vídeo do projeto Pé na Rua, que a entrevistou em março de 2011.

A Comunidade do Coque é uma das mais estigmatizadas do Recife por motivo dos números de violência urbana e criminalidade. Apesar de breve, a fala de dona Quinha do Tamborete também revela essa faceta da sua comunidade, e como esse estigma marcou sua visão de mundo. O bairro tem sido um laboratório vivo de experiências inovadoras com imagem, audiovisual, histórias de vida e música, no sentido de contestar o estigma.
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Localização do Coque na cidade do Recife
• 2007 – 2008: Projeto Coque Vive: investigação sobre o repertório sociohistórico de uma comunidade da periferia do Recife (PE, Brasil)
• 1º de Abril de 2009: Projeto ajuda a requalificar imagem da comunidade do Coque, em Recife

Seminário Entre Memórias, em Fortaleza

Nos dias 19 e 20 de maio, acontecerá na cidade de Fortaleza o Seminário Entre Memórias: Museus e Comunidades. O evento, que vai ser realizado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, vai contar com a presença de representantes do Dragão do Mar, do Museu da Maré (Rio de Janeiro) e do Museu da Pessoa (São Paulo).
Programação completa e ficha de inscrição aqui!

International Day for Sharing Life Stories 2011

Check this out: a day dedicated to life stories! May 16 has been chosen as the International Day for Sharing Life Stories. It’s an initiative of Brazil’s Museu da Pessoa [Museum of the Person] with US-based Center for Digital Storytelling: the 4th annual International Day for Sharing Life Stories. This year’s theme is “life” with a focus on mobile photography and video sharing, and you can be a part of it.

Have you got interesting stories to tell? Do you work for an organization with a focus on social memory and storytelling? An e-book will be made with the photographs sent from all over the world. Get the details here and contact internacional@museudapessoa.net if you’re interested.