Os diferentes valores do ‘feito à mão’

Passei algumas semanas com artesanato ‘na cabeça’. Fiquei responsável por promover discussões sobre consumo, produção, arte e sustentabilidade para uma turma de mulheres artesãs no Canindezinho, um bairro de Fortaleza. A oficina ensinou como fazer um porta-retrato a partir de panfletos de loteria e uma caixa de papel grosso, e tudo ficou muito bonito no final. Mesmo quem nunca tinha trabalhado com artesanato gostou de fazer e conseguiu fazer bem.

Mas são nesses momentos de repasse, de “ensino”, que realmente consolidamos conhecimentos em nós mesmos. Ao final da oficina, compreendi o que eu mesmo havia dito, sobre os diferentes valores do ‘feito à mão’. O que ‘feito à mão’ dá trabalho, principalmente quando é feito por necessidade. Os produtos industrializados eram caros, mas foram diminuindo de preço e agregavam muita confiança, de modo que substituiu o ‘feito à mão’. Os produtos de limpeza, por exemplo. Elas contaram que seus pais faziam sabonetes e vassouras, outros mascavam casca de juazeiro; hoje isso é comprado em supermercados, e não se conhece mais o modo de fazer. Ouvi muitas histórias das participantes, de suas vidas no interior do Ceará, de como os pais e as mães delas produziam as coisas em casa, dos brinquedos feitos por elas, dos objetos montados a partir de outros. De alguns anos para cá, com a valorização do ecológico, existe a busca do resgate das práticas caseiras e de menor impacto ambiental dos produtos de limpeza. Essa valorização, todavia, é encontrada nos setores de maior recurso financeiro, entre pessoas que têm acesso a esses saberes.

O exemplar da revista Vida Simples de fevereiro de 2010 tem um guia sobre a valorização do artesanato e do feito à mão. A revista aborda casos que agregam requinte ao artesanato, como o caso de mulheres que abriram brechó entre amigas, outras que se juntam para tricotar e conversar, uma noiva que costurou seu próprio vestido de casamento etc etc etc. Atividades que perpassam a opção, o desejo, o hype, e emergem valorizadas. As artesãs da oficina realçavam a valorização pessoal, de cada uma delas ao artesanato, mas mencionaram a rejeição de terceiros, como se fosse algo ‘menor’. E foi aí que ficou ainda mais clara a clivagem de classes sociais, do “lugar” de onde falamos.

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