Memória, pra que te quero?

Tenho um quê de acumulador compulsivo. Penso muito nas possibilidades futuras de um objeto, que pode se tornar futuramente um registro histórico de um tempo, de pessoas, práticas, lugares. É uma preocupação com o reconhecimento futuro da memória do meu ‘hoje’? Evito o doloroso momento de arrumação do quarto, pois significa passar os olhos e as mãos por tantos papéis, livros, cadernos, anotações, postais, fotocópias de texto… Acabo me perdendo em meio a todos eles, pois viajo nas recordações, sou novamente enfrentado com questionamentos, faço avaliações de situações atuais. Evito a condição de ‘filtro / filtrador’, de selecionador da colheita, afinal, essa função requer escolhas do que fica e do que vai embora, tal como uma manipulação das lembranças dos eventos. O momento de consciência desses cortes são muito marcantes pra mim. Meu quarto emite sinais de saturação, de não comportar mais nada caso uma arrumação não aconteça em breve, então penso que o patamar preocupante de tratamento clínico para a acumulação já tenha sido atingido. Mas o quanto de memória uma pessoa de 25 anos pode querer guardar?

Nasci e cresci numa cidade dita repetidamente como ‘sem memória’. Ainda é possível ouvir as críticas de que “Fortaleza não tem memória”, “Fortaleza deu as costas pro seu passado arquitetônico”, “Fortaleza se abre para o novo”, “Os lugares sempre fecham em Fortaleza”, “Recife valoriza sua cultura e sua história, diferentemente de Fortaleza”. Fortaleza não tem sua memória ‘guardada’? Tem sua memória disputada? Tem a memória descartada?

Eis que me deparo com um artigo de Alê Youssef no site da Trip, falando sobre uma São Paulo desmemoriada, sem a Vila Madalena. Aqui vai só o trechinho final do post dele, para que ninguém me processe por reprodução não-autorizada: “A Vila dos anos 80 foi uma grande inspiração para coisas que fiz mais tarde e infelizmente talvez seja um exemplo que ao longo do tempo vai se repetindo sem parar, de como a vanguarda cultural é tratada em São Paulo, uma cidade sem memória.”

Assim fico confuso. Não é só Fortaleza? Noutros cantos também temem pela perda de memória da cidade?

Temos medo de que a memória do que vivemos se perca da ‘memória alargada’ de uma cidade? Temos medo da perda de contexto e de referência entre os tempos? Começo a achar que sim. E isso tem tudo a ver com minha acumulação compulsiva.

Gostarias de comentar?

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s