Carta aberta aos que acordaram

Olá, pessoal. Trago hoje aqui uma carta que circulou semana passada no Facebook sobre quem acordou e está descobrindo o poder de associar-se, de ir às ruas, de criticar e fazer demandas em protestos pelo Brasil. Mas isso não para por aí. Vamos à carta? Ela foi escrita pela professora Yvanna Guimarães, dia 21 de junho de 2013. Leia com carinho.

Carta aberta aos que acordaram

Primeiro de tudo, bom dia! Que bom que houve esse despertar coletivo de tanta gente ao mesmo tempo! Mas ao acordar, devemos nos perguntar: por que acordamos e para que acordamos? Percebe-se que existe um sentimento geral de insatisfação e uma sede de sair às ruas para fazer alguma coisa.

Sair às ruas é uma responsabilidade, é cidadania, é exigir seus direitos. Entretanto, antes de rumar com cartazes e palavras de ordem, é preciso debater, discutir, refletir e repensar muitas das nossas posturas. O que queremos exigir de um governo, de um país? As minhas palavras de ordem significam bastante e falam muito de todo o movimento. Portanto, se a maior parte dos meus “gritos” não insurge uma luta, não estou realmente fazendo nada de muito positivo pelo país. Gritar que sou brasileiro(a) com muito orgulho e com muito amor não muda a miséria das ruas, o genocídio dos índios, o desmatamento que ocorre no Cocó e em muitas outras áreas que deveriam estar protegidas e preservadas, a violência diária que as mulheres sofrem, a cura gay que acaba de ser trazida por Feliciano, nem a usina de Belo Monte que está acontecendo, e muito menos a dita corrupção de que tanto se reclama nas últimas manifestações.

Além disso, há de se tomar cuidado com um patriotismo cego que se tem desenvolvido nas movimentações dos protestos. Por que cantar o hino nacional? Por que usar roupas verdes e amarelas e pintar o rosto? Qual a razão do patriotismo? Orgulho infundado é algo perigoso, pois pode turvar a visão, e assim deixamos de enxergar pautas essenciais para caminhar para a mudança do país. Nenhuma mudança aconteceu porque estavam todos satisfeitos e felizes de serem quem eram, mas porque buscavam algo que faltava, ou lutar contra algo que incomodava.

Gostaria de parar um pouco e refletir sobre a corrupção. Em uma luta, para que se consiga algo, é necessário saber também as metas, o ponto X exato que se quer reivindicar com aquele protesto. Lutar contra a corrupção é o mesmo que lutar contra o crime, contra a violência, contra a fome. Como podemos fazer isso? Pensar em pautas claras, em metas cristalinas é um meio de exigir dos governantes exatamente o que queremos que seja mudado. É mais fácil pedir algo que já sabemos o que é ao invés de apontar pra um lado sem saber direito aonde chegar. Exemplifico: ao invés de lutar “contra a corrupção”, por que não lutar contra o financiamento de campanhas por parte de empresas? Ou, quem sabe, exigir que a Lei da Ficha Limpa seja estendida? Será que a PEC 37 vai realmente mudar alguma coisa pra ruim? *** Dessa forma, seremos práticos e saberemos melhor como encaminhar nossas manifestações, sabendo exatamente o que exigir.

É necessário também, ao participar de uma manifestação, de uma luta, de um protesto, refletir sobre qual papel exercemos na sociedade. Que privilégios eu tenho? Essa é uma luta só minha, só da minha classe social? Ou queremos direitos que serão de todos? Pedir por diminuição da carga tributária não beneficiará a todos do país, e muito menos aos que realmente, urgentemente precisam do básico: saúde, educação e transporte público.

Foquemos nossas pautas e lutas! Reflitamos e debatamos sempre para que, para além de um movimento que visa apenas ocupar as ruas e mostrar a voz de um povo que antes dormia, é um povo que agora adquire novas perspectivas e nova consciência social!

Ah, e muito importante. Saibamos ouvir quem luta há mais tempo que nós. As organizações sociais, tais como a Marcha de Mulheres, a UNE e a ANEL são apartidárias, mesmo que ainda participem delas muitas pessoas filiadas a partidos. Saibamos respeitar a existência de pessoas afiliadas a partidos portando bandeira. Esse foi um direito importante a ser conquistado: o de poder se organizar em partidos. Não confundamos as palavras “apartidário” e “antipartidário”.

O primeiro visa um movimento que não é representado por nenhum partido, mas que conta com a presença de quantos quiserem se colocar como participantes, e não líderes. O segundo tenta calar e censurar os partidos que querem participar do movimento como tais, que algo extremamente antidemocrático. É isso que queremos? Uma antidemocracia em favor de uma concepção errônea?

Para além da esperança que se tem ao pisar no asfalto e ocupar sua cidade, pense, reflita, debata. Sentir-se parte de algo grande e mobilizador é fantástico, porém, precisamos ter consciência dos porquês, das direções que queremos tomar e do que exatamente queremos reivindicar.

Está impulsionado pela luta? Agora, rumo à informação, reflexão e debate!
Para ler:
https://medium.com/primavera-brasileira/dfa6bc73bd8a
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/06/21/e-em-sao-paulo-o-facebook-e-o-twitter-foram-as-ruas-literalmente/

Gostarias de comentar?

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s